Grupo "Go-Brazil" - Munique - 21.Julho.2010
Lothar Kuhn e eu fizemos pequenos filmes e depois a edição final. Quem nos convidou para a festa foi uma integrante do grupo, nossa amiga Susie.

Susie e Lothar
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"Aqui tocamos os céus com asas, palavras e véus" (Christina M. Herrmann)


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Há 5 anos lancei a idéia da criação de uma comunidade no Orkut.com onde pudéssemos discutir assuntos diversos, com ênfase em filosofia e cultura, dirigida por 4 amigas. Com o tempo, contamos com o apoio de membros da comunidade para a administração e moderação. Criamos concursos, fizemos diversas entrevistas, lançamos livros impressos, criamos a Homepage da comunidade, o blog Jornal do CF4, editamos vídeos. E nasceram comunidades coligadas, como a Orkultural (ligada à coluna homônima) e a Sociedade dos Pássaros-Poetas. Trovadores Noturnos também se juntou a nós, assim como a Discutindo Literatura, O Ícaro e Borboleta, e outras queridas.
Recentemente, o professor
Hoje, estamos colhendo os frutos de um ambiente propício à liberdade de expressão com respeito às divergências de opinião, como sempre foi a marca da comunidade.
Eu, assim como as outras 3 ´das Quatro´, o corpo de moderadores que nos apóiam e também com a administração, estamos muito satisfeitos com os resultados. Recebemos também um ótimo ´feedback´ dos membros através de e-mails dirigidos à administração da comunidade.
Manifesto aqui meu agradecimento profundo às três amigas Soraya Vieira, Edith
São muitas as pessoas que ajudaram a apurar o sabor do nosso cafezinho de cada dia.
Aproveito a oportunidade para agradecer, também, a:
Denise Moraes, moderadora que contribui massivamente com nossas entrevistas culturais;
Silvia Vitória e
Fabio Vale, que durante um bom tempo ajudou a administrar nossa comunidade;
Todos os entrevistados que já tivemos desde a criação do Café e a todos os membros que participam ativamente contribuindo para o enriquecimento dos debates (seria uma infindável lista de nomes, mas todos eles sabem que são muito queridos por nós).
A todos vocês meu agradecimento especial.
Um grande abraço.
Chris Herrmann
Fundadora do CF4
[o avatar do CF4 foi gentilmente decorado para o aniversário pela Katia Ceregatto, uma ´das quatro´ do Café.]
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Chris Herrmann (Dusseldorf/Alemanha) entrevista o poeta e artista visual Tchello d’Barros (Maceió/Brasil) via e-mail. Dezembro 2009.
1) Chris Herrmann: "Nós precisamos da arte para não morrer de verdade." (Nietzsche) Você concorda com esta máxima filosófica? O quão necessária é a Arte para você, além do retorno financeiro?
Tchello d’Barros: Sempre é bom relembrar Nietzsche, até porque muito do que escreveu, continua atual, é como se tratasse de temas de hoje, sobretudo nas questões da arte. Talvez essa sentença dialogue com o pensamento de Artaud, que dizia que “é preciso mergulhar na morte, para começar a viver”, seria preciso ‘morrer’ para o sistema, dedicar-se exclusivamente à sua missão cultural. O fato é que somos seres criativos por natureza, criar está em nossa essência. No entanto, na atual sociedade competitiva e consumista, há que se priorizar tanta coisa, para sobreviver, que muita gente não tem tempo para o lado lúdico da vida, para se dedicar a algum dom, alguma vocação artística. Aquele talento, geralmente revelado na adolescência, fica adormecido, sublimado pelas lides do cotidiano e metas de conquistas profissionais. Na arte, o retorno financeiro é importante, afinal os artistas são pessoas que pagam contas, igual a todo mundo. Mas não é a principal questão, é apenas uma desejável conseqüência. Em meu caso, posso resumir que a arte não é apenas um combustível para seguir adiante, mas uma instância que dá sentido a minha vida.
2) CH: A situação das Artes no Brasil tem mudado para melhor na(s) última(s) década(s)? Ainda há o que melhorar, e o quê?
T. d’B.: As Artes em geral, tem se desenvolvido muito aqui nos ‘tristes trópicos’, especialmente depois que saímos da ditadura. Houve muitos avanços em termos de legislação, direitos, e mesmo qualificação profissional por parte de gestores culturais e na dinâmica das instituições, sem falar da visibilidade que a arte brasileira em geral vem alcançando em âmbito internacional. Ainda assim estamos longe do ‘melhor dos mundos’. Há que se desatar o quiproquó da equivocada e atravancante Lei Rouanet; há que se implantar e consolidar o SNC Sistema Nacional de Cultura, com seus Fundos de Cultura, renúncia fiscal das empresas, e as cidades e estados devem nomear seus Conselhos de Cultura c/ representantes da sociedade civil organizada e não apenas os cupinchas de prefeitos alienados e governadores megalomaníacos. Há que se mudar a mentalidade do empresariado em geral, que precisa entender o quanto sua marca terá uma visibilidade positiva se associada a projetos culturais. E sobretudo, há que se desenvolver uma conscientização por parte da população em geral, de que a Cultura é seu patrimônio, que lhe confere identidade, que é um direito seu, que é justo cobrar políticas públicas de fomento e manutenção das artes em geral. O povo brasileiro é dono de uma das maiores diversidades culturais do planeta, uma riqueza sem paralelo, é até uma questão de se desenvolver a auto-estima desse povo tão híbrido e multifacetado, que já está mostrando ao mundo o potencial de suas manifestações artísticas.
3) CH: Na sua opinião, o que um artista de hoje precisa ter em mente para aumentar suas chances de uma carreira bem-sucedida?
T. d’B.: Bem, já que não existe fórmula para isso, posso apenas comentar o que o senso comum já sabe. Parece que é necessário antes de tudo desejar isso, ter uma vontade ferrenha de que seu trabalho aconteça. Os obstáculos são enormes, é preciso colocar muito, mas muito amor mesmo naquilo que se faz, para que as idéias e sonhos se concretizem, é necessária uma dedicação e disciplina fora do comum para materializar um projeto artístico, é isso que noto nos colegas bem sucedidos. Mas pessoalmente vejo ainda que as coisas vão além disso. É preciso se profissionalizar, permanecer ético em terrenos movediços, saber dizer não, estar conectado c/ os avanços tecnológicos de nosso tempo, dominar ferramentas para se comunicar com seu público. E creio que seja fundamental garantir a qualidade de seu trabalho, seja em qual linguagem artística for, e para além disso ainda, ter algum diferencial, ser original em questões formais ou conceituais. Possivelmente a combinações desses itens, devidamente adequados a cada caso, podem fazer a diferença para alguém que queira deixar sua marca no âmbito cultural.
4) CH: Como você recebe as críticas? Já aconteceu de você fazer alterações em algum trabalho (literário ou não) por conta de uma crítica recebida?
T. d’B.: Antes de responder, não custa mencionar que a palavra ‘crítica’ aqui no Brasil é carregada semanticamente de uma atmosfera desnecessariamente negativa. Há quem diga que a tradução ideal seria ‘análise’, ou ‘exame’ de uma obra. Trata-se na verdade de fazer uma mediação entre a intenção de um autor com as possíveis interpretações por parte do público. Em meu caso particular, confesso que recebo as críticas sempre com curiosidade, pois interessa-me saber o que pessoas inteligentes pensam de minha produção. Naturalmente que observo se tais pessoas têm autoridade, formação e em qual base conceitual fundamentam seus argumentos. E talvez caiba emncionar que, assim como os tradicionais veículos de comunicação reduziram drasticamente o espaço p/ a crítica, na revolução digital cresceu exponencialmente a picaretagem, o favorecimento, as panelinhas, e espaços onde lixo de todo naipe é apresentado como arte e assim as pessoas ficam um tanto receosas quanto aos conteúdos de valor duvidoso. Daí a cada vez mais importante atuação dos críticos, dos que tem sólida formação, para dar legitimidade e qualificar as propostas dos artistas. Sobre minha produção, não modifico trabalhos, independente de como são criticados, mas geralmente percebo aí um termômetro para as coisas que estão dando certo.
5) CH: Literatura, artes visuais e cênicas, moda... enfim, como diz o vídeo em sua homenagem, você é uma ´explosão de arte´! Em qual momento você percebeu que o ´pavio começou a queimar´? Você planejou percorrer por diferentes vertentes artísticas ou elas foram traçando o seu caminho?
T. d’B.: O vídeo Explosão de Arte, no Youtube, mostra algumas das facetas do que andei produzindo nos últimos quinze anos. Admiro artistas que se dedicam à apenas uma modalidade de expressão (cerâmica, trovas, marchinhas, por exemplo), mas este nunca será meu caso, tenho interesses múltiplos e acredito que seguirei assim. Para mim, o ‘pavio começar a queimar’ muito cedo, sempre me imaginei escrevendo e/ou lidando c/ artes visuais. Passei alguns anos no meio teatral, tive curtíssimas passagens por música, dança e vídeo, mas chegou uma hora em que tive que me decidir por atividades que dependem exclusivamente de mim. Optei sim por me exprimir em diversas linguagens, mas as pessoas que escrevem sobre meu tralho tem notado que em tudo há um fio condutor, elementos de aproximação temática, formal ou conceitual. Depois de meia dúzia de livros solo publicados e participações em mais de sessenta exposições, entre individuais e coletivas, creio ter achado um caminho, embora eu intuo que o melhor ainda está por vir. O pavio segue queimando. Nesse percurso, creio ter produzido um currículo razoável e um portfólio honesto. Na próxima década penso em aprofundamento e aprimoramento, num conjunto de ações para consolidar esse trabalho. Quem vir ver, verá.
6) CH: Fale dos ´ismos´. Eles são imprescindíveis ou apenas servem como um ´guia prático do passado das artes´? Se você tivesse que usar um ´ismo´ para definir seu momento artístico atual, qual seria?
T. d’B.: Os ‘ismos’ da arte foram imprescindíveis em seu tempo, pois norteavam o pensamento, as idéias e principalmente as escolas estilísticas de seu tempo, aglutinando alguns dos talentos mais expressivos. Além disso, influenciavam a cultura em outros países e contaminavam, no bom sentido, muito da produção industrial em design, moda, arquitetura e diversos outros segmentos. Muito disso se deu principalmente na esfera das artes visuais, embora o Surrealismo, só pra citar um desses movimentos, teve desdobramentos na literatura, na pintura, no cinema e estimulou o desenvolvimento de áreas como a psicologia e a psicanálise. Hoje a chamada arte contemporânea aglutina incontáveis estilos, técnicas, suportes, conceitos e propostas, onde os tradicionais ‘ismos’ com suas cartilhas e manifestos já não tem mais espaço, temos no máximo os chamados Coletivos de artistas. Mesmo assim, os tais ‘ismos’ permanecem como um rico referencial da História da Arte, onde eventualmente alguns artistas fazem releituras ou atualizações desses movimentos. Recentemente produzi uma série de retratos, no estilo da Pop Art de Andy Warhol, como uma forma de homenagear esse revolucionário e polêmico artista, que ainda influencia muita gente, principalmente na atitude diante da arte. Já meu trabalho, nunca pretendeu se enquadrar em rótulos, em ‘ismos’, escolas, pós-isso ou pós-aquilo, apenas sigo em frente, produzindo. Deixo essa tarefa para futuros pesquisadores, jornalistas especializados, formadores de opinião, ou teóricos acadêmicos, caso meu trabalho mereça alguma atenção nesse sentido.
7) CH: Onde se encontra o poema visual na cena artística brasileira atual? Você já vivenciou algum tipo de barreira, por exemplo, preconceito ou rejeição do que não seja bastante popular e de fácil assimilação?
T. d’B.: O poema visual na cena artística brasileira atual se encontra... bem escondido, eu diria! Isso porque não é uma modalidade de expressão muito conhecida, não tem apelo popular nem alcança as mídias com divulgação de massa, digamos assim. Só muito recentemente é que vem sendo aceito por parcelas bem restritas do meio acadêmico e muito timidamente já aparece aqui e acolá no currículo de ensino de alguns educandários onde a Literatura é levada a sério. Minha humílima contribuição tem sido dar palestras e oficinas sobre o tema, e também tenho uma exposição de poesia visual, que se chama ‘Convergências’, onde apresento uma seleção de meus principais poemas visuais. Por enquanto a mostra já itinerou por meia dúzia de Estados, mas pretende andar um bocado ainda, antes de se transformar num livro. O que percebo é que essas ações pontuais ajudam a divulgar a Poesia Visual. A boa notícia é que a própria Internet tem sido o meio onde novos poetas visuais (semi-novos também!) têm apresentado sua produção, ainda embrionária, mas já permitindo muita troca e intercâmbio. O que me parece é que a Poesia Visual nunca será exatamente popular, mas isso mesmo também a torna especial, rara, quase um segredo entre iniciados, um código entre poetas, um trigo raro na literatura de nosso tempo. Quanto à questão da assimilação, meu trabalho nunca sofreu preconceito ou rejeição, apenas uma vez cancelaram uma exposição já em plena montagem, só porque havia alguns desenhos de mulheres nuas, nada demais. Mas a produção em geral é bem aceita, mesmo as criações mais conceituais, embora evidentemente haja um certo distanciamento entre as camadas de público com menor formação cultural, pois estamos num país ‘em desenvolvimento’, onde as estatísticas apontam que menos de 10 % de nossa população já entrou num museu ou galeria de arte.
8) CH: A concisão sempre o acompanhou? Muitos de seus poemas mínimos dão a impressão de que histórias máximas (reais) sobre o autor estão sendo sutilmente reveladas. É isto mesmo?
T. d’B.: Por razões que a (minha) própria razão desconhece, sempre produzi obras em que a concisão, o rigor, o emprego de recursos mínimos, dessem conta de comunicar a proposta daquele trabalho, seja nos poemínimos, nos ideogramas ocidentais, nos labirintogramas e por aí vai. Nada contra obras que trafegam em outras vertentes, mas para mim, determinados excessos, tagarelices, verborragias e barroquismos apenas não são minha praia, simples assim. Já vivo num país exuberante, com um povo exuberante, plural, onde tudo é superdimensionado e no superlativo. Meus trabalhos nunca pretenderam negar essa realidade, mas gosto de escrever poemas breves, contos curtos, crônicas precisas. Um desenho, uma gravura, ou uma de minhas pinturas comunicam com poucas cores ou poucos elementos visuais. Não que seja uma regra rígida, mas um tipo de ecomomia conceitual. No fundo persigo uma coisa difícil de se fazer na arte, o simples fato de se comunicar com clareza. O desafio está em fazer isso com poucos recursos, com poucas informações, sejam plásticas ou semânticas. E não trato de temas biográficos, pessoais, qualquer vocábulo “eu” que apareça em meus escritos será sempre um narrador fictício. Mas há quem não acredite muito nisso...
9) CH: Conte sua trajetória com o haicai e o que essa experiência o acrescentou como artista e pessoa.
T. d’B.: Meu contato com o haicai e suas variações começou lá por 1.993, quando comecei a publicar meus primeiros poemas e expor meus primeiros quadros, ainda na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde eu vivia nessa época. Lia haicaístas locais, de outros lugares e também de outras épocas, mas apenas pelo prazer de ler e conhecer cada vez mais dessa poesia de origem nipônica. Até que comecei a escrever também, quase sem querer, de brincadeirinha... Mas essa coisa pega a gente por dentro e na primeira noite escrevi logo uns 50, depois fui vendo que não é só técnica, há que se pesquisar com seriedade e praticar muito também. Como quase tudo, é a prática aliada ao estudo que leva ao aprimoramento, à evolução. Na virada do milênio, publiquei o livro Olho Zen, minha coletânea de haicais. Nessa modalidade literária sou adepto do haicai tradicional, com kigô falando da natureza, métrica tradicional etc, embora aprecie muito ler os adeptos do haicai urbano, tropical, erótico e até os mais experimentais. Atualmente tenho escrito haicais em guardanapos, sem assinar, e deixo sempre sobre alguma mesa... Acredito que nenhum poeta sai incólume após passar pela experiência do haicai. É um aprendizado que permanece e amplia nossa visão de mundo, nosso jeito de estar nesse mundo, sobretudo diante da transitoriedade da vida e da inexorabilidade do tempo. Talvez por isso o haicai é muitas vezes associado à uma fotografia, constituída de palavras, mas que congela o tempo, ou registra um ato, um fato, presenciado pelo autor. Em meu caso, até meu trabalho em fotografia foi influenciado. Não fotografo como um fotógrafo convencional, mas como um haicaísta... Sou também autor de um haicai visual, o Haicai Para Os Sem-terra, onde se vê três fios de arame farpado, com 17 farpas, claro...
10) CH: Kerouac e Leminski foram duas grandes revelações do haikai ocidental. Sem dúvidas que eles estimularam o gosto de novos poetas por este tipo de poesia tradicional japonesa. Quais os ´haijins´ brasileiros de hoje que você recomendaria a leitura?
T. d’B.: Não há dúvidas de que Jack Kerouac e Paulo Leminski foram pessoas que captaram o ‘zeitgeist’ de seu tempo e lugar, o espírito de sua época, influenciaram muita gente e continuam fazendo escola. O haicai, enquanto novidade, já foi considerado um mero poema exótico, no entanto, na atualidade é inegável sua difusão cada vez maior, especialmente no ocidente. No Brasil, terra de todos e dos japoneses também, foi inevitável sua introdução, expansão e até mesmo as polêmicas inovações de estilo. Hoje, crescem nas universidades os TCCs, monografias e teses sobre essa arte onde Bashô segue sendo uma figura emblemática. Em nosso país, o que não faltam são haicaístas de qualidade. Recomendar é um exagero que não ouso, mas cito alguns que já me deram prazer na leitura e muito ensinamento, como Helena Kolodi, Masuda Goga, Teruko Oda, Alice Ruiz, Leila Miccolis, Nempuku Sato, Paulo Franchetti é também uma referência, e ainda o extraordinário haicaísta catarinense Martinho Bruning (em memória), com mais de 10 livros publicados, mas injustamente esquecido. Dos haijins brazucas recentes é impossível citar tanta gente, menciono apenas os que tem me surpreendido mais recentemente, como Benedita Azevedo, Chris Herrmann e os epifânicos haicais de Jiddu Saldanha. Mas prestem atenção nas dedicadas Isnelda Weise e Margit Didjurgeit, que em breve estarão lançando seus livros de haicais.
11) CH: Sartre defendia a tese de que a liberdade dá ao homem o poder de escolha, mas está sujeita às limitações do próprio homem. No caso da internet, como conviver com a ´avalanche artística´ onde a qualidade duvidosa e o plágio disfarçado (ou não) também são empurrados ao público como obra artística genuína? Há o que fazer?
T. d’B.: Eu não sou livre para fazer o quero fazer, apenas para o que posso fazer e ainda devo escolher entre o que é necessário fazer. Sartre era um sujeito que sabia das coisas, e escrevia com propriedade sobre o existencialismo, embora muitos ainda hoje considerem uma sandice ele recusar o prêmio Nobel. Nessa questão aí da liberdade, parece nos lembrar do quanto somos limitados, e que toda liberdade é relativa. Não sei se O Ser e o Nada, sua principal obra, faria tanto sentido nesse mundo meio caótico do novo milênio, mas é inegável que essa questão da liberdade traz uma série de prós e contras, principalmente se o assunto for a qualidade do que é considerado arte e é despejada diariamente na internet, sem crivo, sem crítica, sem critério, sem crime, sem nada. Cada um posta o que quiser e sempre haverá a turminha que aplaude. Quando o conteúdo é bom, os plágios acontecem, é outra praga nefanda. Mas o artista profissional é aquele que registra sua obra antes de publicar por aí, assim resguarda seus direitos autorais. O que fazer com tudo isso? Ser seletivo. Sobre o que ler/ver/ouvir. E para quem é artista, ser seletivo onde publicar. Na internet, o menos é mais, e sendo assim, pode ser muito mais.
12) CH: Você tem um público bem definido para cada tipo de manifestação artística ou se surpreende com frequência? Há algum caso curioso que queira contar ocorrido em alguma de suas exposições?
T. d’B.: Existem sim os públicos específicos, é até natural isso, mas as categorias e modalidades de expressão em que participo, vão meio que somando esses públicos. Já aconteceu de pessoas que curtem meu trabalho em gravura começarem a ler meus haicais. Ou o pessoal que lê minha prosa começar a curtir meu trabalho experimental em fotografia. Frequentemente ocorrem relatos assim, entram pela via do cordel, logo se deparam com a produção em desenho... Já a turma da moda é mais eclética, meio que gostam de tudo... Quanto às exposições, nunca aconteceu nada de tão extraordinário, até porque gosto das coisas muito bem organizadas, mas na década passada eu sempre dava um jeito de colocar atores para realizar alguma performance, geralmente com meus poemas, antes ou depois da abertura. Numa dessas, colocamos um ator nu todo coberto de lama, recitando poemas. Noutra um ator foi todo pintado de tinta metálica e ficou o tempo todo na posição de O Pensador, de Rodin, e muitos pensaram que era uma escultura. Outra vez, um ator entrou pela janela da exposição, como um invasão, dizendo poemas a plenos pulmões. Certa vez uma atriz dizia poemas meus enquanto jogava pétalas de rosas no público. Eu mesmo, nos tempos de teatro, participei de diversas performances e intervenções, essas ações enriquecem um evento cultural, dão um ar de happening e geram interatividade entre diversas linguagens artísticas. Isso nos dá a deixa para concluir dizendo que apesar dos meios digitais de divulgação de uma produção artística, seguirei fazendo exposições físicas, e lançamentos de meus livros, pois acima de tudo, essas ações culturais promovem a coisa mais difícil nesses tempos cibernéticos: a antiga e insubstituível arte do encontro entre as pessoas.
13) CH: Como você vê a situação hoje, no Brasil principalmente, de se publicar livros impressos? Quais os prós e os contras?
T. d’B.: Vejo a situação com muito otimismo. Tenho frequentado bienais e eventos literários de porte e o que noto é um desenvolvimento do setor, começando pelas estatísticas que apontam que o brasileiro está lendo cada vez mais. Naturalmente que estamos longe da média de leitura de países desenvolvidos, mas é um fato que o povo aqui quer ler mais e publicar mais. Outro item é o desenvolvimento do que se chama de parque gráfico nacional, hoje algumas das melhores gráficas do planeta estão aqui, atendendo editores de todo o mundo. E o papel já é certificado com selo de origem ambiental. Pode ser que não se deva comprar um livro pela capa, como se diz, mas os brasileiros produzem os livros mais bonitos, em termos de capa, projeto gráfico e matéria prima. Aqui, um livro é também um objeto estético. Mesmo agora com a invenção do Kindle (livro eletrônico) nosso fetiche por livros só vai crescer. Há também todo um esforço de políticas públicas no sentido de multiplicar bibliotecas, tornar o livro mais acessível, e fomentar a produção por parte de autores brasileiros. A Câmara do Livro e Leitura, coordenada pela Biblioteca Nacional é uma dessas ações. O Proler tem se consolidado. E, pululam pelas cidades do interior as chamadas academias municipais de letras, que estão aí imortalizando um monte de gente... A nota dissonante talvez seja a facilidade em se publicar um livro por aqui, basta chegar numa gráfica com uma graninha no bolso, e plim!... vira escritor da noite para o dia. Sem conselho editorial, sem estudo, sem critério, sem qualidade, muita gente apenas movida pela vaidade, publica seu livrinho para impressionar os amigos, os parentes e algum colunista social. Chique, né! Fora isso, viva a literatura brasileira contemporânea!
14) CH: O que é o belo para você?
T. d’B.: O fator beleza na arte sempre foi definido por um conjunto de conceitos complementares, como a harmonia visual, o equilíbrio cromático, composição da cena, aplicação da perspectiva e ponto-de-fuga, domínio do claro-escuro, perícia da representação da anatomia, abordagem do tema, etc. Até o início das vanguardas históricas do Séc. XX havia uma pergunta tácita que se poderia fazer diante de uma pintura: _Isto é belo? De certa forma a beleza é o que se poderia procurar em uma pintura, gravura, escultura, desenho, ou seja, nas formas tradicionais de expressão plástica. Com o advento das vanguardas, dos já citados ‘ismos’ e de toda a revolução de comportamentos que o século passado presenciou, é natural que as artes visuais não apenas se desenvolvessem, evoluíssem, mas que mudasse também a postura do observador diante de uma obra. A própria beleza passou a ser relativizada e em muitos casos o que se busca hoje em uma obra é uma emoção estética e até mesmo uma reflexão filosófica. A pergunta hoje seria: _ Isto é Arte? Esses estados de espírito podem ser encontrados, por exemplo, em obras cuja proposta seja de forte teor de protesto, um trabalho que, sem ser panfletário, seja altamente engajado. O trabalho em si não é “bonito”, mas desperta sentimentos de crítica ao assunto tratado e atitudes de mudança da realidade. Ou consideremos uma obra que desperte questionamentos quanto ao status quo vigente. Ou obras apresentadas em recursos tecnológicos sofisticados, mas conferindo forte significação em termos de identidade regional. Na contemporaneidade, talvez o belo seja apenas aquele tipo de objeto estético que enfeita paredes da burguesia alienada, combinando com a decoração. Mas arte mesmo, é aquela que transforma nossa visão do mundo, nossa relação com o homem e o modo como encaramos a vida. Evoé!
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Além de um grande amigo, um artista sem igual. Leonardo Andrés Lobos Lagos (Santiago do Chile, 1966) poeta, ensaísta, tradutor e artista visual. Possui as seguintes publicações: Cartas de más abajo (1992) editado pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile e Arrayán editores, + poesía (1995) súper yo editores, ángeles eléctricos (1997) Luis Saldias editorial, Camino a Copa de Oro (1998) edições Pazific Zunami, Perdidos en La Habana y otros poemas (1999), Cielos (2000), Nueva York en un poeta (2001), a seleção antológica Turbosílabas (2003) pela editora gato de papel que reúne seus poemas de 1986 a 2003, Devagar (2004), Un sin nombre (2005), Nieve (2006), Vía regia (2007) e No permitas que el paisaje este triste (2007).
Como co-editor, junto com o artista visual Rafael Insunza, publicou o livro em homenagem ao poeta chileno Pablo Neruda: Diez máskaras y un kapitán el año 1998, uma homenagem ao poeta universal dos artistas visuais Rafael Insunza, Jorge Cerezo, Rafael Gumucio, Sergio Amira y Claudio Correa com o patrocínio da Fundação Pablo Neruda e da Universidade do Chile, editora Pazific Zunami.
Participa com seus poemas, ensaios, ilustrações, fotografías e traduções dos meios culturais no Chile e em outros países, tem sido traduzido ao inglês, português, holandês, francês e alemão.
Vem realizando inúmeras exposições individuais e coletivas; suas pinturas, ilustrações, poemas visuais e desenhos fazem parte de coleções privadas na França, Brasil, México, Estados Unidos e Chile.
Leo Lobos foi agraciado com a bolsa UNESCO-Aschberg de literatura em 2002 e fez residência criativa no Centre de Arte de Marnay Art Center CAMAC na cidade de Marnay-sur-Seine, França entre 2002-2003.
Blog: http://leolobos.blogspot.com
Seleção de 5 Poemas de Leo Lobos (no original em espanhol)
"Soy sirio. ¿Qué te asombra, extranjero, si el
mundo es la patria en que vivimos todos, paridos por el caos?"
Meleagro de Gádara, 100 antes de Cristo.
Jazz on the park
Leemos el diario en el Jazz on the Park ( Jazz on the Park es el hotel donde nos hemos mudado), me siento encerrado.
Nos han invitado al concierto de Peter Salett, y es sin duda una buena idea para salir de aquí al paso del estado en el que nos encontramos. Un taxi móvil nos lleva al Club que está prácticamente copado, entramos sin dificultad con la ayuda de los ángeles custodios en medio de luces fotográficas cegadoras, tomamos bebidas blancas, escuchamos con atención mientras hermosas mujeres rubias son
mecidas por la música.
New York, Estados Unidos, 1999.
Tres mujeres, un piano, un gato y una tormenta
A Alexandra Keim
Es difícil ser un pájaro
y volar contra la tormenta sobre la cicatriz de la Tierra que deja el camino de asfalto
mejor es como un gato estar
siempre atento a las brasas
cerca de la chimenea
y escuchar
siempre atento escuchar
a tres lenguas diferentes hablar
un idioma a la vez fascinante
a la vez misterioso y conocido
oír e ir en su música
en sus luces y propias
y universales sombras
fotografiar
por tan solo un segundo
fotografiar con la mirada sus perfiles
de ser posible
flotar
dentro
de la sala
como
un pájaro
en
la
tormenta
Marnay-sur-Seine, Francia, 2002.
Silencioso dentro de la noche
“Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite”
Manuel Bandeira
Fluir, leve andar
descalzo inflar lentamente los pulmones
pesar cada paso sentir
cada instante entrar
silencioso dentro
de la noche
como sí ella
fueras
tú
Marnay-sur-Seine, Francia, 2002.
Una secreta forma
"las palabras como el río en la arena
se entierran en la arena"
Roberto Matta
el automóvil esta poseído por la fuerza
de los animales que le habitan
como un carruaje tirado por caballos
sobre piedras húmedas de un pasado verano
Río de Janeiro aparece de repente como
la secreta forma que el Atlántico
deja entrever desde sus colinas de azúcar:
ballenas a la distancia algo
comunican a nuestra humanidad sorda
y cegadas por el sol preparan su próximo vuelo
caen ellas entonces una vez más como
lo han hecho desde hace siglos
caen ellas en las profundidades entonces
caen ellas y crecen en su liquido amniótico.
São Paulo, Brasil, 2004.
Perdidos en La Habana
Se puede ver a lo largo de Cuba verdes
o rojos o amarillos descascarándose con el
agua y el sol, verdaderos paisajes de estos
tiempos de guerra
Después de tres botellas de ron
ella lloraba en el lobby
del Hotel Capri, mientras le leía poemas que no eran míos,
Hablaba de las playas a las que llegó
en motocicleta, cuando aún el sol brillaba
los cubanos son niños que lo miran todo decía
Otro él, aparece desde el centro del salón y necesito
más de un segundo para
reconocerle
me acerco y me cuenta de mujeres, palacios de salsa,
de bailes mágicos
no hay, pienso
no existe una isla
sin orillas...
No quiero habanos
no tengo dólares
mejor será
desaparecer antes que la noche
El Vedado, La Habana, Cuba, 1995.
Labels: Leo Lobos

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“Convergências” – A Poesia Visual de Tchello d’Barros
O espaço de exposições do Largo das Letras, Rio de Janeiro – RJ, apresenta a exposição Convergências, composta de poemas visuais do catarinense/alagoano Tchello d’Barros. A mostra apresenta também o álbum fotográfico Palavraria Pública, um exercício de street photography, onde o autor fotografa – no Brasil e em diversos países - recortes de frases em placas, out-doors, fachadas de lojas, etc, resultando num diálogo inusitado com as obras de Poesia Visual. Para a poeta Andrea Lúcia, curadora da exposição, “esta é uma boa oportunidade para o público carioca e fluminense conferir como os trabalhos de diferentes fases desse poeta visual se relacionam com sua produção contemporânea”, pois a mostra traz para o Rio de Janeiro algumas criações recentes e mesmo alguns trabalhos inéditos do autor. Embora Tchello d’Barros tenha também publicado até o momento cinco livros de poemas ‘convencionais’, começou mesmo foi com poemas visuais lá pelos idos de 1993, em Blumenau – SC, e segue numa produção lenta mas constante, numa média de meia dúzia anualmente. Desde 2004 está radicado em Maceió – AL, e por conta das oficinas literárias que ministra sobre o tema, reuniu alguns trabalhos de séries mais representativas e estreou a mostra em 2006, no NAC – Núcleo de Arte Contemporânea, em João Pessoa – PB. Na seqüência, em 2007, foi exibida no Misa – Museu da Imagem e do Som de Alagoas, em Maceió – AL. Em 2008 foi apresentada no CEN - Congresso Internacional de Literatura Lusófona, em Blumenau – SC. Após essa passagem pelo Rio, a mostra segue a itinerância para outras capitais brasileiras.
Para a abertura da exposição em Santa Tereza , haverá também um sarau de poesia, coordenado pelo poeta Luiz Fernando Prôa, que realiza na cidade diversas ações literárias, além de editar o site Alma de Poeta, onde Tchello desenvolve algumas curadorias. No sarau, além da apresentação dos Poemínimos – micro-poemas Verbi-voco-visuais de Tchello d’Barros – diversos poetas estarão presentes para recitar seus próprios poemas. Na sequência, apresentação musical (guitarra, violão e piano) com Aloysio Neves trazendo arranjos de Toninho Horta, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, A. Neves, Joe Pass, Villa-Lobos e Tom Jobim, entre outros.
Programa
Abertura às 19:00hs
- Exposição de Poesia Visual - Tchello d’Barros
- Exposição do álbum Palavraria Pública - Tchello d’Barros
- Sarau Alma de Poeta - coordenação de Luiz Fernando Prôa
- Apresentação Musical (guitarra, violão e piano) - Aloysio Neves
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SERVIÇO
Abertura: quinta-feira 03 set 2009 - das 19 às 24h
Local: Livraria Largo das Letras - Tel. (21) 2221-8992
Rua Almirante Alexandrino, 501 Largo do Guimarães
Bairro Santa Tereza - Rio de Janeiro - RJ
Entrada franca
Visitação: 04 set à 04 out 2009 - Terça à Domingo - das 14 às 24h
Curadoria: poeta Andrea Lúcia - agatha_triste@hotmail.com
Mais informações: Tchello d’Barros - tchello@tchello.art.br
Agradecimentos:
Anna Mallet – Largo das Letras
Luiz Fernando Prôa – Alma de Poeta
Paulo Rafael – Pizzas Artesanais
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Informações Complementares:
Como chegar:
De carro: Pode subir pelas ruas Cândido Mendes, na Glória, Monte Alegre, no Bairro de Fátima, Joaquim Murtinho, na Rua do Riachuelo, é só seguir os trilhos do bonde.
De ônibus: Há duas linhas, 206 e 214, o ponto final fica na Av. Nilo Peçanha, ao lado do Buraco do Lume, antes de subir o morro tem parada na rua Gomes Freire, Lapa, em frente ao Supermercado Rede Economia e Banco Itaú.
De Bonde: Há horários de meia em meia hora, o último partindo ás 20:30h, é só se dirigir a estação ao lado do prédio da Petrobrás, na av. Chile, Centro.
Gastrô: no local pode-se tb degustar as Pizzas Artesanais de Santa Tereza, acompanhadas por um bom vinho, uma cerveja bem gelada, limonada suíça, doces e a cachacinha Caraíba, da cidade de Paraopeba, M. G, guardada em barril de jequitibá. Tudo ao ritmo e a velocidade tranquila do bairro de Santa Tereza.
Feriado: O espaço estará aberto também na segunda-feira do feriado de 07 de setembro.
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